Vitória comemora, afinal, a gloriosa História

Pioneiro, talvez, entre os rubro-negros brasileiros a usar a camisa com listras horizontais, utilizando apenas as duas cores, antes, portanto, que o Flamengo a consagrasse em todo o planeta, o meu querido Vitória, um dos clubes idealizadores do futebol na Bahia, conquistou o seu primeiro bicampeonato em 1908 e 1909. Mas, somente 44 anos mais tarde, em 1953, ao se profissionalizar, ganharia o terceiro título, conduzido pelo técnico argentino Carlos Volante (1910 – 1987), hábil estrategista, tendo como centroavante o paraense Quarentinha (1933 – 1996), inaugurando, assim, uma década que qualifico de ouro para os Leões da Barra. Foram os anos de minha infância e quando me tornei rubro-negro.

Dois anos depois, em 1955, ainda sob o comando de Volante, voltaria a ser campeão – repetindo o feito em 1957, porém, sem o treinador portenho, mas com um ataque avassalador, no qual se destacavam o baiano Teotônio e o carioca Mattos. Os anos 1950 catapultaram o Vitória para se tornar a segunda maior torcida do estado – ao superar o popular Ypiranga, então chamado de o ‘Mais Querido’. E agora, 123 anos depois de sua fundação, ganha, finalmente, uma substanciosa obra, digna de sua trajetória, que acaba de chegar às livrarias: Memórias do Esporte Clube Vitória, escrita a oito mãos, ao longo dos últimos 12 anos, por Tiago Bittencourt, Milton Filho, Allan Correia e Lucas Gramacho. É um lançamento da Editora Máquina de Livros e compreende um total de 40 entrevistas – através das quais os autores acabam por reconstituir, com raro brilho, as diferentes narrativas históricas.

Tive o privilégio de ser um dos entrevistados – respondendo, naturalmente, sobre os anos em que o meu saudoso pai, Albino Castro (1926 – 1970), de quem, com muita honra, herdei o nome e o sobrenome, esteve, durante os anos 1962 a 1971, como dirigente do clube. Primeiro como diretor de futebol, depois, vice-presidente, e, por último, presidente. Ele era um baiano de coração, porém, nascido do outro lado do Atlântico, no norte da Espanha, na província galega de Pontevedra – e me fez adepto do Vitória. Assim como aos meus irmãos Orlando, Carmen e Luis
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Vários craques, sobretudo nos últimos 50 anos, aparecem na obra. Inclusive um de meus ídolos na infância, Mattos, que acabaria, para minha tristeza, se transferindo, em 1961, para o Bahia. Lá estão sabatinados, também, o supercraque sérvio Petkovic, contratado ao Real Madrid, bem como estrelas nacionais como David Luiz, Arturzinho, André Catimba, Edílson e Bebeto. Também foram ouvidos nomes do mundo das artes, entre os quais, Paulinho Boca de Cantor, do grupo Novos Baianos, e Wagner Moura. A mais completa das entrevistas, na minha opinião, foi realizada com o ex-presidente Paulo Carneiro, que revolucionou a agremiação, entre 1991 e 2005, vencendo por 10 vezes o Campeonato Baiano. Ele é filho do atacante português Rui Carneiro, um centroavante que atuou nos anos 1940 pelo Vitória e acabaria por se tornar dirigente do clube. Paulo Carneiro conta com detalhes a sua briga com o ex-presidente Francisco Ney Ferreira (1929 – 2011) e torna o depoimento imprescindível para quem pesquisar, no futuro, a vida do rubro-negro soteropolitano.

É uma obra, sem dúvida, de muito fôlego. Faltou apenas, digamos, uma referência a um dos mais brilhantes intelectuais de nossa esquerda – e torcedor do Vitória. Trata-se do baiano Armênio Guedes (1918 – 2015), dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), conterrâneo e contemporâneo do escritor Jorge Amado, ilustríssimo ypiranguense. Guedes era jornalista de ofício. Passou boa parte da vida amargando a clandestinidade e o exilio. E, ao encontrar um baiano, em Moscou, Paris ou no Rio de Janeiro, perguntava, de bate-pronto: “Como vai o meu Vitória?” Guedes, como eu, ficaria orgulhoso, seguramente, com o livro escrito pelos quatro jovens rubro-negros.

Albino Castro é jornalista

Correio 24hs

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