Vamos todos ver o Galícia em Pituaçu!

Galícia! Galícia! Galícia! Demolidor de Campeõooes, granadeiros da Cruz de Santiago, clube querido de muitas tradições! Um, dois, três… o Galícia tem nome na história, no futebol, tem títulos de glória…

Todo o belo hino galiciano é uma preciosidade, mas a parte capaz de doar um sentido de desporto mais agudo diz assim: “os torcedores do Galícia são modestos, são ordeiros, contudo animados…”.

Assim deveriam ser as torcidas. Ordeiras e animadas. Hoje tem Galícia x Jacobinense, programado para outra joia: O estádio metropolitano de Pituaçu, localizado em meio a um lindo parque cheio de ninfas e flores.

O Galícia é um grande clube, não se deixe reduzir pelas aparições imediatas do mundo. Do fenômeno, assimilamos seus aspectos, a cor, os jogadores, o distintivo, o hino; a agremiação é muito maior e poderíamos acrescentar: “infinita”.

Um time sem disputar campeonato de relevo há não sei quantos mil anos é capaz de levar torcida com ingresso pago, e se não fosse um jogo às 4 horas de um dia útil, e sim um sábado ou domingo, eu apostaria em pelo menos mil torcedores.

É muita gente, considerando a ausência do Galícia das nossas páginas esportivas e resenhas, “um grande amor não vai morrer assim”, dizia aquele rei, alguns o nomeiam de canalha (eu não), embora babe o juiz ladrão da Lava-Jato.

Não sei se meu amigo-irmão José Manoel Iglesias Garcia vai poder fechar três horas o Cuco Bistrô do Largo do Cruzeiro do São Francisco ou minha irmã Pilita gostaria de ver nosso Galícia jogar, mandando meu beijo aqui da coluna para minha mãe de criação, dona Lola.

É um erro reduzir o Galícia à participação da comunidade de origem galega, fugida da guerra civil na Espanha, onde os anarquistas traídos por Stálin perderam feio para o filadaputíssimo Franco.

Ao chegarem a Salvador, com a roupa do corpo e a língua embolada, além daquele gosto invejável para trabalhar de domingo a domingo, os galegos migrantes e refugiados não foram bem recebidos.

Ainda não tinha o Núcleo de Apoio aos Migrantes e Refugiados (Namir), admiravelmente coordenado por professora Mariângela Nascimento, e o jeito foi criar um clube para eles, porque os nossos os rejeitaram.

E como eles não chegaram tão bons de bola, nem em número suficiente para formar um time, acolheram nossos negros rejeitados, tornando-se o Galícia uma potência multiétnica capaz de conquistar o primeiro tricampeonato e demolir todos os sudestinos visitantes. Olé!

Tão presente é o Galícia no coração da cidade a ponto de estudantes de jornalismo por mim orientados escolherem o clube para temas de Trabalho de Conclusão de Curso, como João Paulo, Antônio Marcos, Cecílio Angelico, Luiz Fernando e tantos outros hoje estabelecidos no mercado.

Pena terem nossos intelectuais da briosa esquerda expulsado o futebol das políticas públicas, desconhecendo a força de união desta manifestação cultural, bem acolhida no colinho da direita a ponto de até a camisa da Seleção ter sido sequestrada.

Era uma cena rica quando tínhamos o Galícia disputando palmo a palmo com Vitória e Bahia, no entanto, por algum motivo estranho à lógica do Capital, pois perdemos mercado, terminamos resumidos ao Ba-Vi e hoje nem isso, só restou nosso Bahia em condição meeira.

Paulo Leandro é jornalista e professor Doutor em Cultura e Sociedade

Correio 24hs

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