Todo medo do amor do outro é ridículo

Também escrevi em meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. Assim como você, rasguei cartas ainda com a caneta na mão. Tanto as palavras esdrúxulas, como os sentimentos esdrúxulos são ridículos. Porém, muita gente escondeu e esconde seus textos e contextos amorosos não por achá-los bobos, mas por sentir medo.

O amor, quando é bem forte mesmo, costuma vir acompanhado do medo da rejeição. Mas não é desse temor comum que eu falo. Trato do medo de um julgamento severo, dos outros, de Deus, da família, dos amigos, de si mesmo. Abordo o risco de ser transformado ou se considerar piada, pecador, anormal, vergonha. É o receio de receber vaias, escárnio, levar socos, de ser expulso, ou até assassinado por amar.

Quem enfrenta esse medo pode tentar controlar o que passa no peito, mas o ego, o id e o super ego travam batalhas imprevisíveis com sentimentos reprimidos. Mesmo com tantos receios, normalmente direcionam-se as paixões para onde elas deveriam ir: a busca de felicidade. A cautela obriga a desenvolver estratégias para identificar quando o amor é seguro. A escondê-lo de terceiros. A escolher bem aonde ir, quando ir e com quem ir. O beijo do ano novo pode não acontecer junto com o dos outros, mas esperar até as 2 ou 3 da manhã.

Nem todos reagem da mesma forma. Alguns preferem enfrentar o medo de frente. Isso deve causar muitos problemas. Quantas pessoas amadas não devem se queixar? Seria vergonha? Seria covardia? O amor seria realmente amor? Por que escondê-lo?

Convenhamos que tornar público um amor proibido requer muita coragem. Devem ser anos de guerra silenciosa, até decidir ir a uma festa ou simplesmente passear na praia. A sensação de felicidade e liberdade desses atos pode ruir de repente. Mesmo em um grupo de 1000 pessoas, basta uma não conseguir disfarçar o próprio incômodo com a vida alheia para o pesadelo recomeçar.

Podem ser piadas e risos abafados de quem não tem inteligência para fazer humor. Podem ser insinuações, contatos físicos … até vir a reação de quem não aguenta mais o preconceito. Mas a violência continua ainda quando a reação é seguida de respostas como “o mundo está chato… não se pode mais dizer nada… tudo é ofensa… também estão exagerando…”
A alegria vira tristeza. Mas, sabendo elaborar bem, a humilhação agora não está na vítima. É do comportamento do agressor que precisamos sentir vergonha. O mundo tem que ficar mesmo chato, muito chato, para quem se julga no direito de discriminar. A agressão, afinal, também é fruto do medo. O medo que o agressor sente do amor e da felicidade dos outros.

Em nome daqueles que não toleram os intolerantes, gostaria de pedir desculpas. Não adianta que digamos que é apenas um pequeno grupo. Enquanto houver um capaz de agredir e enquanto houver um capaz de justificar a agressão porque “era apenas brincadeira”, “foi culpa da bebida”, “não foi nem assim” ou “não foi nada demais”, a culpa é de todos. Todos falhamos.

Desejo que homens que amam homens celebrem com seus maridos. Que mulheres que amam mulheres exibam suas companheiras. Que andem de mãos dadas. Que se beijem à meia noite em ponto. Deixem os pseudônimos, as vidas secretas para os poetas. Fernando Pessoa estava errado. Ridículas não são as criaturas que nunca escreveram uma carta de amor. Ridículo é agredir quem ama. Ridícula é a homofobia. Contem conosco. Os homofóbicos que se escondam.

Rafson Ximenes é Defensor Público Geral da Bahia

Correio 24hs

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