‘O quarto da empregada ainda é uma realidade’, afirma Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz lança seu quarto livro, Solitária

A trama de Solitária, quarto romance da escritora carioca Eliana Alves Cruz, se passa em um edifício de luxo no Rio de Janeiro. Mas poderia ser em outra cidade grande qualquer, por dois motivos: primeiro, porque a narrativa é intencionalmente restrita aos ambientes internos; e depois, porque fala de uma das mais perversas heranças da escravidão: a presença da empregada doméstica que mora com os patrões, ocupando o quartinho a ela destinado.

“Poderia ser em qualquer lugar de classe média alta, em qualquer capital do país”, afirma Eliana, que está em Salvador para lançar o livro neste sábado, em evento às 11h na livraria LDM do Shopping Bela Vista. Ela conversa com a jornalista Vânia Dias sobre o trabalho, que marca sua estreia na editora Companhia das Letras, e também na prosa te tom contemporâneo, depois dos três romances históricos: Água de Barrela (2015), Cais do Valongo (2018) e Nada Digo de Ti que Em Te Não Veja (2020).

“O Solitária já estava na minha cabeça desde Água de Barrela, mas aí veio a pandemia, desenhando de forma explicita todos os resquícios da escravidão no nosso país, pois a elite não conseguiu ficar sem seus serviçais e fomos vendo todo tipo de tragédia se desenhar, os casos de trabalho análogos à escravidão, a morte do menino Miguel”, enumera Eliana, que é jornalista e assina uma coluna no UOL Esportes.

O romance não é sobre a pandemia, mas tem seu desfecho quando a doença está instalada e usa a morte de Miguel –que caiu do quinto andar, por negligência da patroa de sua mãe – como simbolismo da relação perniciosa que ainda sobrevive em muitos lares.

A trama é sobre Eunice, a empregada, e sua filha Mabel, e os embates em torno de suas subjetividades e do desejo de mudarem de vida. O livro é divido em três partes: a primeira é narrada por Mabel e já começa com a seguinte frase: “Mãe… a senhora precisa se libertar destas pessoas… A senhora não deve nada a elas, pelo contrário”. Mabel será a mola propulsora para Eunice romper os vínculos – inclusive afetivos.

A segunda parte traz o ponto de vista de Eunice e a última, dos espaços frequentados por elas, com destaque para o quarto da empregada. “Todo quarto de empregada é próximo à grande lixeira da casa, porque está sempre no fundo do profundo do imóvel. Nós, os ‘quartinhos’, estamos sempre perto dos odores da vida das pessoas que não nos habitam”, reflete o quartinho.

Apesar das muitas denúncias que faz no livro, Eliana afirma que seu objetivo é falar sobre libertação. “Quem é realmente livre no Brasil hoje?”, questiona a escritora, cuja família é de origem baiana. Ela faz uma clara defesa do direito à educação como transformação. “Quem é de uma família negra e nunca ouviu alguém falar ‘você vai estudar para chegar onde cheguei’”? diz Eliana, acrescentando que as cerca de 6 milhões de empregadas domésticas do Brasil, 80% negras, ainda vivem em uma situação de muita invisibilidade, sem terem seus direitos básicos assegurados.

“O quarto de empregada ainda é uma realidade, mesmo que ele não exista mais”, pontua Eliana, acrescentando que não retratar a empregada doméstica na ficção é uma forma de apagamento dentro do apagamento. “É um trabalho digno e é a história de muita gente. A arte brasileira precisa mostrar estas vozes”.

FICHA

Livro: Solitária

Autora: Eliana Alves Cruz

Editora: Companhia das Letras

Preço : R$ 55 e R$ 35 (e-book)

Fim de semana

elísio

Fotografia de Elísio Pitta está na mostra Bênção

Casa Rosa abre exposições de diferentes linguagens

Instalado em um belo casarão no Rio Vermelho, a Casa Rosa está com programação interessante e diversificada, que combina arte e gastronomia. Quem quiser passar lá só para conhecer o espaço pode curtir gratuitamente as exposições que ocupam os diferentes espaços da casa. No Foyer, o artista Nuno Ramos apresenta Chama, uma instalação reflexiva sobre a vida, lançada em São Paulo em 2021; e o estilista Fause Haten traz sua obra O Monstro , escultura em porcelana branca vitrificada, composta por 4 autorretratos do artista.

No Mezanino está a Exposição Cartas D’Água, que traz obras de arte de 6 artistas e 16 crianças de 3 a 10 anos, levando o público a refletir sobre a singularidade dos olhares das diversas infâncias. E na Sala Rosa, o público poderá navegar pela Exposição Benção, composta por 100 artistas consagrados e da nova geração, que apresentam 200 obras de variadas linguagens: entre eles, Adenor Gondim, Adriana Hita, Alberto Pitta, Alex Simões, Bel Borba, Elísio Pitta e J. Cunha, entre outros. das Visitação de quinta a domingo, 14h às 18h, até 10/07.

Correio 24hs

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