O privilégio baiano

Quando li o Tratado Descritivo do Brasil de 1587, o título da segunda parte me pareceu um convite irrecusável: “Das grandezas da Bahia de Todos os Santos, de suas fertilidades e das notáveis partes que tem”. Ali, o português Gabriel Soares de Sousa, residente na colônia desde 1560 e vereador da Câmara, nos chama para percorrer um caminho só nosso, nesta reentrância do Atlântico Sul, como bem dizia Cid Teixeira. A minha rota preferida.

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Sempre tive a curiosidade de refazer toda a viagem. E refiz. Em uma reportagem para este mesmo Correio, há coisa de 15 anos, deixei a barra de Santo Antonio, segui rumo ao sítio de fundação e margeei toda a costa, até o encontro com o Paraguaçu, sem esquecer os labirintos. Com o exemplar original debaixo do braço, comparava, constatava as transformações e vibrava com a manutenção da toponímia, como a das ilhas dos Frades e de Maré, e de outras, quase iguais, a exemplo de Taparica e Tapagipe.

Gabriel relatava com certo orgulho as qualidades do lugar. “Por esta barra podem entrar as naus de noite e de dia com todo o tempo, sem haver de que se guardar”. Correu pela ribeira de Água de Meninos, Pirajá, admirou lá no alto Nossa Senhora de Escada, “formosa igreja dos padres da Companhia”, e conheceu Paripe e Aratu, após vencer a Ponta do Toquetoque, nome ainda conhecido por quem navega há muito na área.

Encantou-se com os engenhos e as ermidas muito bem concertadas. Foi num vai-e-vem, descobrindo os esteiros até chegar às antigas terras de Mem de Sá, o terceiro governador, àquela altura de propriedade do genro, o conde de Linhares.

Adentrou o caudaloso rio Paraguaçu, passou pela ilha dos Franceses e se encantou com “um recôncavo de três léguas; cousa mui formosa, a que chamam Uguape”. Retornou e, sentido Tinharé, a extremidade da baía, comparou o Jaguaripe com o Douro, o rio nascido na Espanha, que passa por Tordesilhas e desemboca no mar na cidade do Porto, logo após a ponte da Arrábida, no Norte de Portugal.

Ao concluir a redondeza da baía de Todos-os-Santos, Gabriel conta “vinte e duas ilhas e dezessete ilhéos; fora as ilhas que há dentro nos rios, que são dezesseis entre grandes e pequenas, que junto todas fazem a soma de cinquenta e cinco”.

Portanto, razão de ser e existir Salvador, o grande lagamar nos convoca. Nada mais honesto e verdadeiramente original do que curtir os caminhos da primeira capital pelo mar, olhando-a de frente, brincando de descobrir os prédios históricos, as ladeiras sinuosas, as fortalezas resistentes, as igrejas e seus santos.

Dos 1.233 quilômetros quadrados, recorto o trecho entre os fortes da Barra e do Mar, ou de São Marcelo, exatamente em frente ao promontório escolhido por Tomé de Sousa para erguer a cidade. Por ali navegar é entender as sábias escolhas do fundador e de Diogo Álvares Correia, o Caramuru. É se sentir, nas águas calmas e mornas de Kirimuré, um privilegiado soteropolitano.
Flávio Novaes, diretor de Cultura do Gabinete Português de Leitura
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