O medo depois de Cristal: estudantes revelam temor de andar pelo centro de Salvador

Protesto na quarta, 03, para pedir segurança reuniu colegas de escola de Cristal

Confiança básica é o conceito da psicologia que explica, de forma resumida, a fé que depositamos uns nos outros para vivermos juntos, em sociedade. É o que faz a criança desenvolver a certeza de que seus familiares vão zelar por ela. É o que permite às pessoas andarem nas ruas das cidades sem temer um perigo a cada esquina. A violência urbana, assim como abusos contra crianças, destrói o sentimento de confiança básica. Uma adolescente de 15 anos morta com um tiro no peito em uma tentativa de assalto, a caminho da escola, gera um trauma social que estilhaça a convicção de que podemos sair de casa sem correr risco.

Estudantes de Salvador que fazem caminhos parecidos com o da garota assassinada, viram sua confiança básica ser quebrada da mesma forma que se partiu a vida de Cristal Rodrigues Pacheco. O crime aconteceu terça-feira, 02, nas primeiras horas da manhã, nas imediações do Campo Grande e do Comando-Geral da Polícia Militar. As duas assaltantes, a que deu o tiro em Cristal e a comparsa, estão presas e à disposição da Justiça. Mas, apesar delas não estarem mais nas ruas do Centro, onde praticavam assaltos, o medo tomou conta de outros adolescentes e de suas famílias.

"A gente já tinha medo, agora é pavor", afirma, sem pensar duas vezes, uma estudante do Colégio das Mercês – o mesmo onde Cristal estudava – sobre a sensação de insegurança dos jovens da região. Segundo ela, desde a morte de Cristal, o temor de ser alvo de violência no Centro de Salvador, que já existia, ficou ainda maior.

Depois de toda a repercussão do caso Cristal, hábitos que eram comuns mesmo com o receio prévio, deixaram de existir: "Tenho o costume de sair com colegas para comer, ver umas lojas e até ir ao shopping porque é bem perto daqui, mas meus pais disseram para não fazer isso e eu também nem quero, para não correr risco", conta ela, que cursa o Ensino Médio da escola.

Na quarta-feira (03), 24 horas após a morte de Cristal, em um protesto para pedir mais segurança no Centro, Larissa Biazzi, 17, que também estuda nas Mercês, falou sobre o pavor que tem de circular pela área. "Saio de casa olhando para o lado e correndo de roubo, da violência. Eu tô aqui [no protesto], mas amanhã não sei se minhas amigas vão estar vivas. É perigo em todos os lugares e ninguém faz nada. A polícia que está aqui hoje não vai estar semana que vem", afirmou Larissa, muito emocionada.

Medo mesmo com polícia
Um ambulante que trabalha próximo ao colégio disse que, apesar do crime, o movimento por lá segue parecido e que a única diferença é o policiamento na área desde a morte de Cristal. "O que eu não tinha visto aqui antes [do crime] era policiamento, pelo menos não nessa quantidade que passa toda hora. Tem dois agentes da PM circulando aqui no local para evitar qualquer tipo de problema" disse ele, que preferiu não se identificar.

Enquanto a reportagem esteve na região, quatro duplas de agentes da PM a pé foram vistas realizando rondas nas avenidas Sete de Setembro e Carlos Gomes. Uma viatura estava parada na frente da Praça da Piedade e outros dois agentes, ao lado de uma moto, davam plantão no encontro entre a Rua Forte de São Pedro e a Avenida Sete. Equipes da Guarda Cívil Municipal (GCM) também montaram plantão em frente ao Passeio Público, onde Cristal foi morta.

A maior presença policial, no entanto, não tranquiliza quem tem filhos e netos estudando na área. Uma avó de estudante de escola pública do Centro, que preferiu não se identificar, disse temer todos os dias que algo aconteça ao neto. "Ele já não vinha sozinho, agora que não vem mesmo. O pai traz de manhã e eu sempre busco agora perto do meio dia. Estamos vivendo com um temor muito grande, fazendo orações, protegendo ele da forma que é possível e esperando que nada de mal aconteça", diz a avó, que mora na Ladeira da Independência, em Nazaré.

Além dos pais, o medo também se colou aos jovens. "Meus pais trabalham muito, não têm tanto tempo e nem sempre podem me buscar e trazer. Desde terça-feira, não me deixam vir e nem voltar sozinho. Eu também estou com medo, obedeço o que me dizem pra não acontecer nada", fala ele, que tem apenas 10 anos.

De onde vem o problema?
Como os próprios moradores e trabalhadores da região central de Salvador relatam, a sensação de medo nessa área da cidade não é recente. Cientista social e pesquisadora do Observatório de Segurança da Bahia, Luciene Santana explica que a região é caracterizada para crimes situacionais, sem planejamento. "São assaltos de oportunidade. Geralmente, acontecem em horários específicos, com pessoas que acabam aparecendo, ou em lugares de muito tumulto. Como é um espaço com grande circulação de pessoas e que em alguns pontos às vezes fica deserto, a oportunidade surge", explica.

O acontecimento de crimes de oportunidade como o que vitimou Cristal, para ela, decorre de um problema que é estrutural e antigo: a falta do direito à cidade. "Quando não se tem uma situação propícia com, por exemplo, iluminação, segurança e equipamentos que façam as pessoas acessarem o espaço público, o direito à cidade é perdido por conta da insegurança. Por meio da violência, as pessoas não conseguem ir e vir, acessar espaços de lazer e fazer outras atividades", avalia.

Outro ponto destacado pela pesquisadora como fator é a facilitação às armas garantido pelo tráfico de drogas até para a população em situação de rua. Ela pontua, no entanto, que é preciso ter cuidado ao colocar a culpa do problema em quem não tem lugar para morar. "É uma população que vive em vulnerabilidade e sofre com estigma por conta de crimes que acontecem. De fato, muitos acabam sendo cometidos por essa população. Porém, é preciso cuidado porque estamos falando de uma pessoa majoritariamente negra que ocupa as ruas não por vontade própria, mas porque não teve uma outra opção", completa.

*Orientado pela editora Mariana Rios e com a colaboração da subeditora Andreia Santana

Correio 24hs

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