Estudantes de escolas públicas vibram com viagem a Portugal

Os doze estudantes que vão a Portugal em maio

Gritos de "Maravilhoso!" e "Ele merece!", entre muitos berros, era o que se ouvia na manhã deste sábado (19), no auditório do Subúrbio 360, no bairro de Coutos. E havia mesmo motivos para tanta alegria: estavam sendo divulgados os nomes de 12 estudantes de escolas públicas selecionados para passar dez dias em Portugal. Em Lisboa, eles vão viver uma experiência única de cultura e educação, visitando os castelos onde a Família Real morou e conhecendo estudantes portugueses da mesma faixa etária deles, entre 14 e 15 anos.

A viagem é resultado do projeto "Era Uma vez…Brasil", que está na quinta edição e acontece em Pernambuco, São Paulo e Bahia. Mas a viagem à metrópole é apenas uma das etapas que os alunos viveram. Embora essa seja a compensação, há muita coisa tão importante quanto esse embarque, que acontecerá em maio.

Numa das etapas de avaliação, os estudantes deveriam, com base no livro "1808", de Laurentino Gomes, recontar em forma de HQ a história do Brasil, mas a partir de uma perspectiva brasileira e não a partir da visão dos colonizadores, como muita gente se acostumou a ver na escola.

Numa outra etapa, cerca de 120 estudantes passaram uma semana num acampamento, realizando atividades como oficina de audiovisual e a produção de um curta-metragem. Também foram visitar uma aldeia indígena e um quilombo em Lauro de Freitas. Kailane Cunha, do Colégio Alfredo Amorim, já se prepara para arrumar as malas.

"Durante o projeto, apendi muitas coisas importantes, como a coletividade, o trabalho em grupo e a convivência com os colegas. Além disso, pude conhecer a cultura indígena e quilombola. Assim, aprendo melhor a nossa história", revela a estudante, que, pela primeira vez, vai viajar para fora do estado.

Maria Isabel, que também nunca saiu da Bahia e estuda no Alfredo Amorim, e se já sonha com Portugal, disse que aprendeu o significado da amizade: "Amei conhecer aquelas pessoas e levo elas pra vida toda. Na viagem, pretendo conhecer muita coisa, conhecer pessoas e os castelos".

Uilson, um dos premiados, com a mãe, Eliane

Uilson Barbosa, do nono ano do Colégio Clériston Andrade – que é filho de um mestre de obras e de uma dona de casa – diz que, durante o acampamento, não precisou fazer esforço para agradar ninguém: "Apenas fui quem eu sou, fiz amizade com todos, mostrei quem eu sou: uma pessoa legal, que não briga com ninguém. Apenas mostrei minha simpatia". E realmente ele conquistou a todos, como a reportagem testemunhou: na hora em que seu nome foi anunciado, Uilson foi abraçado por muitos colegas e ouviu gritos dos "fãs".

A mãe dele, Eliane Sales, disse que o garoto é um filho é estudante exemplar.

"A experiência do projeto permitiu a ele conhecer pessoas e ele passou a enxergar o mundo de uma maneira diferente. Ele não saía de casa, era em casa o tempo inteiro. Pela primeira vez, saiu e conheceu coisas novas".

Eliane não esconde que o coração está apertado por causa da viagem, mas sabe que a experiência vai ser muito importante para ele: "Já disse que não sei como será meu sofrimento com a viagem".

Mas não foram só os estudantes os premiados com a viagem. O professor Raul Coelho Barreto Neto, que ensina no Alfredo Amorim, vai acompanhar os alunos. Foi a Raul que o auditório dirigiu os gritos citados no início deste texto. "Este é um projeto único e falo isso com a experiência de 20 anos como professor. Nunca participei de nada parecido", revela Raul, que também foi selecionado em 2019 e, numa das etapas do Era Uma Vez, passou por um processo de formação de educadores.

O projeto, segundo Raul, vai além do conhecimento intelectual. "Mexe com a autoestima desses estudantes, que enfrentam muitos problemas sociais. Então, precisamos 'seduzir' o aluno, porque a maioria não se acha capaz. Mas nós, professores, temos o desafio de mostrar a eles que são capazes, sim", diz o professor, entusiasmado.

Raul faz um alerta:

"Muita gente acha que é uma viagem de turismo, mas não é verdade. A viagem desperta neles até o desejo de estudar fora do país. Há estudantes que viajaram em outros anos e hoje estão morando no Canadá".

Raul, que foi professor de Kailane e de Maria Isabel, diz que praticamente teve que "empurrar" as meninas para que participassem do projeto. "No começo, não tiveram interesse. Mas fui falar com elas e disse que eram duas meninas inteligentes, capazes e eu falei que não aceitaria a desistência delas".

Marici Vila, produtora executiva do Era Uma Vez e criadora do projeto, diz que a ideia nasceu inicialmente com o objetivo de preparar os professores de história para que contassem a verdadeira história do Brasil. Por isso, a etapa de formação dos educadores é tão importante. "Costumamos contar a história do país a partir da visão eurocêntrica, mas queremos contar a partir dos povos originários daqui, que são os indígenas e os negros. Por isso, numa das etapas, os estudantes vão visitar um quilombo e uma aldeia", diz Marici.

O Era Uma Vez… Brasil é viabilizado através da Lei Rouanet e tem patrocínio das empresas YamanaGold, Rodonaves, Lwart e Grupo Moura.

HQ de Rebeca Rocha de Sousa, que também vai a Portugal

Fonte: Correio 24hs

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