Desmatamento e agrotóxicos acendem alerta para ataques de abelhas

“Elas não atacam por atacar, mas, como todo animal, se defendem quando ameaçadas", diz Genna Souza, bióloga, pesquisadora da Universidade Estadual do Oeste da Bahia e especialista em meliponicultura, a criação de abelhas sem ferrão

Onze pessoas ficaram feridas depois que a van que as transportava para o trabalho caiu em uma ribanceira, no município de Coração de Maria, a cerca de 100 km de Salvador. Um idoso de 77 anos morreu a caminho do supermercado, em Irecê, no norte do estado. O estudante e ambientalista baiano Alisson Sá se despediu da prima, que faleceu no terreiro de sua roça, em Jatobá, Pernambuco. No Rio de Janeiro, dois homens tiveram experiências de quase morte, enquanto as pessoas olhavam incrédulas, sem poder fazer nada. O que esses casos têm em comum? Ataque de abelhas.

Observando a série histórica brasileira – de 2000 a 2010 – o número de ataques aumentou. Foram 1.440 em 2000 e 17.807 em 2010. Neste mesmo período, quase 200 mil pessoas foram atacadas por abelhas. Dados mais recentes sinalizam que, entre 2010 e 2021, foram registradas 454 mortes. As informações são do Ministério da Saúde. Na Bahia, apenas no ano passado, foram notificados 1.590 acidentes com abelhas; destes, 11 evoluíram para óbitos. Este ano, até o momento, são 399 casos, com três mortes. As informações são do Centro de Informação e Assistência Toxicológica da Bahia (Ciatox-BA), da Secretaria de Saúde do Estado (Sesab).

Mas, antes de vilanizar as abelhinhas, é preciso entender o que vem acontecendo para que os ataques estejam ocorrendo com mais frequência, inclusive nas cidades. A bióloga e pesquisadora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Genna Sousa, 48, procura, primeiro, acalmar a população e evitar que as pessoas destruam as colônias. Doutora em Ciências Agrárias e especialista em meliponicultura – criação de abelhas sem ferrão -, ela garante que boa parte das espécies encontradas em áreas habitadas não têm ferrão: “No máximo, dão leves mordiscadas, mas não dói”. Aquelas que possuem ferrão e veneno são da espécie Apis mellifera, as abelhas africanizadas. “Elas não atacam por atacar, mas, como todo animal na natureza, se defendem quando se sentem ameaçadas”, esclarece Genna, que já emprestou uma abelha da sua criação para ‘posar’ com a cantora Vanessa da Mata em fotos de divulgação do álbum “Quando Deixamos Nossos Beijos na Esquina” (2019).

Após as chuvas de Verão, as abelhas enxameiam à procura de espaços como árvores ocas, cupinzeiros, barrancos e grutas, para o desenvolvimento de uma nova colônia. Acontece que, com a degradação cada vez mais agressiva do meio ambiente, acabam migrando para as cidades. É quando somos surpreendidos com colônias em postes e árvores nas ruas e condomínios, em locais abandonados e escuros, propícios ao desenvolvimento das colônias. “Devido ao desmatamento das áreas naturais e uso exagerado e contínuo de agrotóxicos nas lavouras, as abelhas não estão encontrando habitats naturais e acabam migrando para as áreas urbanas. Em contato com a população, se defendem”, explica Genna.

A função das abelhas vai muito além da produção de mel: 250 mil espécies de flores dependem delas para se reproduzirem. Frutas e vegetais também ganham uma ajudinha destes insetos voadores, que têm impacto em cerca de 90% da produção de alimentos no mundo. “As abelhas são responsáveis pela polinização da grande maioria das árvores nativas, o que as torna fundamentais para a vida na Terra. Sem abelha, não há alimento”, alerta Genna Souza. As abelhas são tão do bem que, em 2019, foram consideradas os seres vivos mais importantes do planeta, de acordo com a renomada organização ambiental internacional Earthwatch Institute.

Então, o que seria necessário para garantir a segurança da população, bem como das nossas amiguinhas voadoras? “As abelhas precisam de corredores ecológicos para migrarem de um local para outro, mas a supressão vegetal tem impedido isso”, diz a bióloga. Corredor ecológico é uma faixa de vegetação que possibilita o deslocamento da fauna e flora entre as áreas isoladas e, consequentemente, a troca genética entre as espécies e a dispersão de sementes.

Atendimento e resgate

O ambientalista e estudante baiano Alisson Sá, 33, ainda se recupera da perda da prima, vítima de ataque de abelhas, em 28 de março. Maria do Socorro Menezes de Sá, 60, estava no quintal do sítio onde morava, na zona rural de Jatobá, em Pernambuco, quando foi atacada por um enxame que parecia ter se agitado com o barulho de um trator na propriedade ao lado. O tratorista presenciou a cena e entrou em contato com a prefeitura, mas quando o funcionário chegou, estava sem roupa adequada. Ele voltou para a cidade para se paramentar com os equipamentos de segurança e, quando retornou ao sítio, encontrou a mulher já sem vida. Foram milhares de picadas. “Foi um choque sua morte e a constatação da inexperiência de um profissional que deveria ajudar a salvá-la”, conta Alisson.

O biólogo Marcos Abelha resgata colmeias em locais de risco (Foto: Reprodução)

A responsabilidade pelo atendimento às vítimas e retiradas de ninhos varia de cidade para cidade em todo o país. Em Salvador, o Corpo de Bombeiros pode ser acionado através do 193, para os primeiros socorros, bem como o SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), no 192. O Centro de Controle de Zoonoses, órgão da Secretaria Municipal de Saúde, faz a retirada das colmeias, mas “apenas em vias públicas, órgãos públicos e imóveis de pessoas em extrema situação de vulnerabilidade social”.

Em 2021 foram recolhidos 61 ninhos durante todo o ano. Agora em 2022 também já foram 61, apenas nos primeiros meses. O número de solicitações para retirada, no entanto, chega a 167. A Guarda Municipal informa que, através do Grupo Especial de Proteção Ambiental (GEPA), vem realizando capacitações de agentes para, em um futuro próximo, fazer os resgates dos ninhos. Ainda não existe previsão para o início destas ações.

Acostumado a lidar com abelhas desde os 12 anos de idade, o biólogo Marcos Aurélio Pereira de Andrade, 40, se especializou na área. Além de meliponicultor, ele realiza, desde 2010, a retirada de colônias em propriedades particulares. Já são mais de 200 resgates na conta. Não à toa, ganhou a alcunha de Marcos Abelha. Durante os resgates, o biólogo usa equipamentos de Proteção Individual (EPIs): máscara, macacão e luvas especiais para apicultura, além de bota cano longo de borracha. As roupas, preferencialmente, são brancas, pois as abelhas costumam se agitar com as cores. Após o resgate ser realizado, Marcos doa as colmeias que podem ser reaproveitadas por produtores. Só em último caso os enxames são eliminados.

“Prezamos, primeiramente, pela vida do ser humano, mas só destruímos os ninhos se não tiver jeito mesmo, quando, por exemplo, as abelhas ficam presas em postes de concreto, canos de PVC, e atacam as pessoas na rua ou outros ambientes. Faço isso com o coração partido”, lamenta. Nem toda experiência e amor livrou o biólogo de também ser alvo destas adoráveis criaturas, em duas ocasiões: a primeira, em 2018; a segunda, em 2020, quando levou cerca de 20 ferroadas. Os bairros onde fez mais atendimentos foram os da Paralela, Piatã e Barra. Há alguns dias, ele realizou a retirada de um enxame em um colégio particular na Pituba.

Marcos Abelha diz que é possível diferenciar as colônias que têm ferrão daquelas que não têm, mesmo para quem não é especialista. “De manhã cedo, a movimentação ou atividade de voo das abelhas africanizadas (com ferrão) é mais intensa, elas saem mais do ninho, muitas ao mesmo tempo, principalmente se for época de florada. A atividade de voo das abelhas sem ferrão é menor, em geral” ensina. Por via das dúvidas, o mais indicado, no entanto, é não mexer nas colônias e procurar um especialista para a retirada. Vale destacar que aquele que tenta, sem a permissão do Ibama, retirar ou eliminar colmeias com fogo ou outros métodos, mesmo que seja em propriedade privada, além de colocar sua vida e a de terceiros em risco, comete crime ambiental previsto na Lei Federal 9.605/98. A pena é de multa e prisão.

Daniel Cady tem um meliponário na Linha Verde (Foto: Reprodução)

Contato com respeito

O médico alergologista Celso Eduardo Avelar Freire Sant'anna alerta que a vítima de picada por abelha pode apresentar desde manifestações clínicas leves – vermelhidão na pele e dores no local da picada, que podem ser tratadas com bolsas de gelo e corticoide tópico (pomada) d anti-histamínicos (ou antialérgicos) via oral, em doses e prazos recomendados -, até choque anafilático, uma reação alérgica grave ou mesmo fatal, que acomete pessoas previamente sensibilizadas. Neste último caso, ele recomenda a procura por atendimento hospitalar imediato.

Foi exatamente o que a mãe de Beatriz de Freitas Vivas, 42, fez quando um dos amigos do filho foi picado por uma abelha, enquanto brincava de bola em sua casa, num condomínio na Estrada do Coco. O fato ocorreu há trinta anos. Beatriz era criança, mas a lembrança ainda está viva. “Eric levou uma ferroada e começou a sentir falta de ar. Minha mãe o levou às pressas para o hospital Menandro de Farias, onde foi prontamente atendido e sobreviveu”, recorda.

Já adulta, a relações públicas presenciou um segundo ataque de abelhas. Este, vitimou o cachorro de um casal de amigos. O poodle Lion levou mais de 100 ferroadas. O trauma ficou, mas também trouxe lições importantes para Bia. “Eu amo morar em casa, então, respeito muito a natureza. Já tivemos casos de cobras, aranhas caranguejeiras, lagartas venenosas. Por isso, a gente orienta as crianças a não mexerem nos bichos”, conta a mãe de Vitória, 12 anos, e Gabriel, 2.

A relação do nutricionista Daniel Cady, 37, com as abelhas também é de respeito e preservação. Aprendeu ainda criança, com o avô. Quando ia visitá-lo na fazenda, de vez em quando levava ferroada. O tratamento era mais alternativo. “Lá em casa nunca teve mertiolate. Tudo era tratado com própolis – dor de garganta, gripe, corte, ferida -, um antisséptico e antibiótico natural muito potente, com um poder cicatrizante absurdo”, explica. Própolis é uma resina naturalmente produzida pelas abelhas, a partir da seiva das árvores, que é combinada com a cera e enzimas das próprias abelhas.

Durante a pandemia, Daniel se mudou para uma casa em Praia do Forte e começou a se conectar com a natureza. “Foi o despertar de uma nova consciência. Em um determinado momento, me reconectei também com o meu avô e seus ensinamentos. Decidi criar abelhas sem ferrão. Fiz cursos on-line e me aperfeiçoei”, relembra ele, que passou a criar abelhas uruçu. E aprendeu muito ao observar a organização delas: “As abelhas ensinam que a vida não é essa competição que a gente vive, a vida é cooperação. Elas dão um exemplo muito forte de cooperação, de fazer o bem pelo coletivo”.

Hoje, o nutricionista tem um meliponário na Linha Verde, com 100 caixas de abelhas uruçu nordestina, aberto à visitação, inclusive de crianças. “A ideia é ensinar às pessoas e desmistificar essa coisa de que as abelhas são assassinas, são vilãs. Precisamos aprender com elas. Precisamos fazer alguma coisa para salvá-las”.

Medidas para evitar acidentes com abelhas e ajudar vítimas de ataques:

  • A remoção das colônias de abelhas deve ser feita por profissionais devidamente treinados e equipados, preferencialmente à noite ou ao entardecer, quando os insetos estão calmos;
  • Evitar se aproximar de colmeias sem estar com equipamentos de proteção adequados (macacão, máscara, luvas, botas, fumigador etc.);
  • Evitar caminhar ou correr na direção da rota de vôo das abelhas;
  • Odores fortes, barulhos e cores escuras desencadeiam o comportamento agressivo e, consequentemente, o ataque de abelhas;
  • Se perceber que está sendo atacado, saia correndo, de preferência em zigue-zague, e procure abrigo longe das abelhas;
  • Para ajudar uma vítima de ataque, se enrole em um cobertor, deixe apenas a parte dos olhos descobertas, para poder se orientar espacialmente. Em seguida, jogue um outro cobertor em cima da pessoa que está sendo atacada;
  • É importante a remoção dos ferrões (sem atrasar o atendimento médico), pois é onde fica a glândula de veneno. Essa remoção pode ser feita por raspagem com lâminas (faca), removendo os ferrões pela base e tendo o cuidado para não cortar a vítima, ou com a borda de um cartão de banco. Nunca usar os dedos, pois esse procedimento resulta na compressão da glândula junto ao ferrão e a consequente introdução do veneno ainda existente, o que agravará o envenenamento;
  • Retire a vítima do local do ataque e entre em contato imediatamente com o serviço de resgate (SAMU – Serviço de Atendimento Móvel de Urgência: 192. Corpo de Bombeiros: 193) ou leve-a para a unidade de saúde mais próxima (UPA, hospital, clínica, etc.)

Correio 24hs

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