Clássico ‘O Tempo Não Para’, de Cazuza, retorna com novas faixas

Cazuza, numa apresentacao do show O Tempo Não Para em São Paulo

Quando foi explicar à mãe, Lucinha Araújo, por que estava saindo do Barão Vermelho para a carreira solo, Cazuza (1958-1990) disse, bem à sua maneira:

"Eu sou filho único e não divido nada com ninguém. Muito menos, o palco"

E ele provou que tinha talento e competência de sobra para brilhar solitariamente. Tanto que deixou um trabalho solo brilhante, com obras-primas como Exagerado, Blues da Piedade e Faz Parte do Meu Show.

E a maior prova de que Cazuza realmente havia nascido para ser dono do palco é o show O Tempo Não Para, que ganhou um registro ao vivo lançado em 1989 e se tornou um clássico entre os grandes álbuns brasileiros. Agora, a gravação está de volta, em uma edição especial disponível desde ontem nas plataformas de música. A data de lançamento coincidiu com o aniversário de 64 anos de um dos maiores letristas da história da música brasileira e dá início às comemorações dos 65 anos.

Durante a turnê, em 1988, Cazuza estava muito debilitado por causa do HIV, que acabou provocando a sua morte. Mas, ainda assim, o músico fez questão de encarar seus fãs, como lembra Lucinha: "Ele estava numa fase da vida que sabia que o tempo era curto. Se a gente for parar para escutar as letras, a gente entende a mensagem que ele tava passando. Considero meu filho muito corajoso porque subir no placo, magro… ele era lindo, o corpo lindo… mas ele já estava magro, debilitado, subir e cantar enfrentando o público… nesse aspecto, ele era muito corajoso, principalmente quando ficou doente".

O show que deu origem ao álbum começou pequeno, como lembrou o baixista Nilo Romero, que integrava a banda e foi também o diretor musical do espetáculo.

"Esse show tem uma particularidade: começou pequenininho, no Aeroanta [casa de shows de São Paulo], uma casa pequena e terminou ganhando o Brasil, foi o maior show da época".

Ney Matogrosso, que dirigiu o show, diz que fica impressionado com as composições daquele disco e, especialmente, com o quanto as canções permanecem atuais: "Comecei a ouvir o disco agora e pensei: 'meu Deus do céu, isso poderia estar sendo lançado hoje'. E tem uma coisa que observo: Cazuza nunca parou de tocar, mesmo depois de 32 anos da morte dele".

Além das dez canções que estavam no álbum original, foram incluídas outras sete, cujas gravações ao vivo permaneciam inéditas: Vida Fácil; A Orelha de Eurídice; Blues da Piedade; Preciso Dizer Que Te Amo; Só as Mães São Felizes; Mal Nenhum e Brasil.

Há ainda trechos das falas de Cazuza no show, que também permaneciam desconhecidos. Um dos que mais emociona é sobre o clássico Ideologia: "Eu me arrependi quando fiz essa música, peço desculpas. Aquele garoto que ia mudar o mundo pode continuar a mudar o mundo, em qualquer idade. A gente muda e, se a gente muda, o mundo pode mudar também!”, disse o compositor em referência ao trecho "E aquele garoto que ia mudar o mundo / Agora assiste a tudo em cima do muro".

Além de ser disponibilizado no formato digital, o álbum ganhará em breve uma versão em Áudio Espacial (Dolby Atmos) e uma edição especial em CD físico (Deluxe), com surpresas para os fãs e colecionadores. Também já está disponível no YouTube um clipe inédito dirigido por Barbara Coimbra com imagens do show e novas intervenções visuais.

Três espetáculos relacionados a Cazuza marcam comemorações dos 65 anos
Os 65 anos de nascimento de Cazuza se completam no ano que vem, mas as comemorações já tiveram início. Além do lançamento de uma nova versão de O Tempo Não Para, há três espetáculos que vão ser apresentados neste ano, em várias regiões do país.

Um deles é o concerto Exagerado, que vai apresentar versões sinfônicas para canções como Ideologia, O Tempo Não Para e Pro Dia Nascer Feliz. A turnê estreia hoje no Rio de Janeiro e segue para Vitória, Belo Horizonte e Belém. Os 30 músicos são do programa Vale Música, sendo 10 do Pará, 10 do Espírito Santo e 10 do Mato Grosso do Sul. Há ainda cinco integrantes da Nova Orquestra, do Rio de Janeiro. O programa Vale Música, criado pelo Instituto Cultural Vale, envolve cerca de 250 profissionais e mais de 1.000 alunos em intercâmbios, aulas e residências artísticas.

Rogério Flausino e Wilson Sideral retomam um tributo em que homenageiam a obra de Cazuza. Depois de passar por São Paulo, no último fim de semana, o show será apresentado no Rio de Janeiro, em 24 de abril, e no palco Rock District, no Rock in Rio, em setembro.

O musical Cazas de Cazuza, criado em 2000 por Rodrigo Pitta, também ganhou nova versão em 2021. Já foi apresentado no Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte. Em maio, chega a Brasília e, em agosto, no Teatro Amazonas em Manaus. No mesmo mês, segue para Belém.

Correio 24hs

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