Júri popular absolve Kátia Vargas após quatro anos da morte dos irmãos...

Júri popular absolve Kátia Vargas após quatro anos da morte dos irmãos Emanuel e Emanuelle

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Quatro anos depois da morte trágica dos irmãos Emanuel e Emanuelle, no bairro de Ondina, em outubro de 2013, a médica Kátia Vargas foi absolvida nesta quarta-feira (06), em júri popular realizado desde a última terça (05), no Salão do Júri do Fórum Ruy Barbosa, em Salvador.

O júri popular foi formado por sete pessoas, sendo cinco mulheres e dois homens. Na plateia foram disponibilizados 432 lugares, dentre os quais 9 foram destinados para os parentes da médica e 9 para os das vítimas. Além disso, 54 lugares foram disponibilizados para convidados da defesa e da acusação (27 para cada lado). Os demais lugares – um total de 360 -, ficaram à disposição do público em geral, incluindo a imprensa.

O julgamento teve início na manhã de terça-feira (05) com o depoimento das testemunhas de acusação. O primeiro a falar foi Álvaro Lima Freitas Junior, que contou como foi o acidente.

Primeira testemunha de acusação

“Voltava de uma caminhada, passou a moto, deu um tapa na lateral do carro, como se estivesse reclamando. O carro acelera bruscamente e persegue a moto. Quando eu percebi que o veículo perdeu o controle, ao chegar lá, me deparei com uma cena chocante. Vi que a situação era mais grave do que eu imaginava,” relatou Junior.

A pedido do promotor Davi Gallo, Álvaro descreveu também detalhes de como estavam os corpos das vítimas. “O corpo do rapaz em cima do passeio. O corpo da moça estava no asfalto e as pernas em cima do passeio”, disse.

Segunda testemunha de acusação

Maria Antônia Palmeira declarou que não viu o carro batendo na moto. “A impressão que eu tenho é que o carro saiu primeiro. Vi algo sendo batido no carro, não sei se foi a mão ou o capacete. Não vi o carro batendo na moto”, disse.

Terceira testemunha de acusação

Arivaldo Lima Souza garantiu ter visto a colisão: “Após abrir a sinaleira, segui em frente. Percebi uma discussão, mas não me interessava. Vi passar a moto e a médica veio atrás em alta velocidade. O carro colidiu no fundo da moto. Percebi que a moça estava com o pescoço quebrado e o rapaz sangrava pelo pescoço. Retirei a moto de cima dos corpos”, disse Souza.

Arivaldo declarou ainda que não teve dúvida nenhuma que o carro bateu na moto. E lembrou: “se eu não freio meu carro, teria colidido comigo”.

Quarta testemunha de acusação

Denilson Silva Souza declarou estar deixando o serviço em um evento no Othon Palace, hotel em que o carro da médica colidiu após bater na moto dos irmãos Emanuel e Emanuele, conforme disse em seu depoimento. Ele afirmou que a médica colidiu contra a moto e que houve perseguição: “Sabe quando um leão vem correndo atrás de uma presa?”, disse.

E continuou: “Quando ela passou por mim, ela estava no meio da pista, seguindo [os irmãos na moto]. Passou por mim em alta velocidade”, declarou Denilson.

Quinta testemunha de acusação

Felipe Martins de Almeida Souza estava passando na via oposta e viu o choque entre o carro e a moto. Ele afirmou que viu o veículo emparelhar (se aproximar) da moto e acertar sua lateral. Ele afirmou ainda que Kátia teria acelerado o carro e jogado o volante para a esquerda.

A testemunha confirmou ter visto o impacto do carro na moto: “o carro realmente colidiu com a moto”. No momento do acidente, Kátia estaria trafegando próximo ao meio fio.

Já tarde e noite do primeiro dia do julgamento (05) foram marcadas pelos depoimentos de defesa da médica Kátia Vargas. Confira:

Primeira testemunha de defesa

Alberi Espíndola (perito) pautou seu depoimento em desconstruir a tese de colisão intencional, que foi abordada anteriormente pelas testemunhas de acusação e pelos peritos do caso.

Segunda testemunha de defesa 

Ana Tereza, amiga de Kátia, dona da academia de dança que a ré frequentava na época do acidente, disse que a médica nunca mais conseguiu retomar a vida dela e citou que Vargas era envolvida com projetos sociais.

Terceira testemunha de defesa

Ivete Peres, também amiga de Kátia, destacou sua relação com a médica, que a conhecia desde os 6 anos de idade e que Vargas sempre foi meiga e dócil. A mesma ainda relatou nunca ter presenciado um momento de fúria de Kátia. “Ela sempre se retraía e chorava. (…) Mãe presente, mãezona, sempre a favor dos filhos”, disse.

Quarta testemunha de defesa

Edmilton Pedreira da Silva falou que Kátia tinha sido um anjo na vida dele. O ajudou a tratar do filho que tinha glaucoma. “Ela o acompanhava e nunca cobrou um real. Ele tinha glaucoma, problema na retina, miopia”, lembrou.

Quinta testemunha de defesa

Carina Caldeira Lima, também é amiga da oftalmologista. E destacou que elas participavam, juntas, de um projeto social denominado Corrente do Bem. Somente a defesa fez perguntas a ela, que enfatizou o caráter pacífico da médica acusada.

Depoimento de Kátia Vargas

Neste segundo dia de julgamento (06) foi a vez da médica Kátia Vargas prestar o seu depoimento. Confira o que ela disse: “Não consigo lembrar de todos os detalhes do que aconteceu naquele dia. O que eu lembro é que na véspera do acidente eu cheguei em casa normalmente, jantei, falei com minha mãe. No dia seguinte fui pra uma aula de dança. Foi uma aula divertida, alegre. Depois da aula a professora me pediu uma receita de medicação pra filha dela e ficamos conversando. Saí da escola 8h20 da manhã. Quando tava começando a sair do sinal, a moto me ultrapassou pela direita. Ele gesticulou como se estivesse aborrecido e eu não entendi o motivo da gesticulação. Dei sinal pra passar e acelerei e ele não abriu, então eu desisti. Ultrapassei a moto pela esquerda e retornei a pista. Quando eu retornei eu perdi o controle do carro e não lembro o que aconteceu. Lembro de um barulho e eu tentava controlar o carro sem conseguir. Lembro do meu desespero porque tinha um ponto de ônibus”. A juíza perguntou se ela perdeu a consciência. E ela respondeu: “Não, mas fiquei bastante atordoada. Em nenhum momento eu tive a intenção alguma de ‘triscar’ na moto”.

Momentos de emoção

O julgamento foi marcado por muitos momentos de emoção. Durante a manhã do primeiro dia (05), o Ministério Público decidiu mostrar os corpos dos irmãos vitimados em Ondina, Emanuel (21 anos) e Emanuelle (23 anos), enquanto a segunda testemunha  do caso, Maria Antônia Palmeira, dava declarações sobre o fato. Antes de exibir as imagens, a promotoria recomendou que a mãe das vítimas, a enfermeira Marinúbia Gomes, se retirasse da sala, para não ver as imagens, mas ela permaneceu no local.

Abalada com as imagens exibidas no telão, Marinúbia não resistiu ao ver as fortes cenas e saiu da sala amparada por amigos e familiares. Além dela, outros familiares e amigos das vítimas também deixaram o local emocionados com as imagens exibidas.

Momentos antes Marinúbia também já havia deixado a sala do júri chorando por reencontrar com Kátia pela primeira vez após a morte dos filhos.

Kátia Vargas também deixou a sala do júri em diversos momentos chorando. A médica que chegou no primeiro dia do julgamento vestida de branco, chorava sem parar ao início da sessão.

Neste segundo dia (06) o advogado de Kátia, Oliveira Lima, declarou que a imprensa colocava Kátia como um monstro e que a comparavam com Fernandinho Beira Mar. Nesse momento, a médica chorou muito e se mostrou bastante emocionada.

Antes disso, ela também já havia demonstrado muita emoção com o depoimento gravado pela mãe dos jovens, que foi reproduzido durante o julgamento. Kátia chorou muito ao ver Marinúbia falando.

Relembre o caso

O caso aconteceu em outubro de 2013 e, após uma briga de trânsito, testemunhas afirmam que a médica perseguiu com um carro os irmãos que estavam em uma moto. Kátia é acusada de ter acertado a motocicleta em um trecho da orla do bairro da Ondina. A dupla não resistiu aos ferimentos e morreu.

O laudo feito após o acidente constatou que a médica estava dirigindo em alta velocidade e que ela “agiu de forma deliberada”. “Com base em todas as análises anteriormente expostas, pode-se inferir que o condutor do Sorento, trafegando sem a devida atenção e cuidados indispensáveis à segurança do trânsito, em velocidade superior permitida àquele logradouro, agiu de forma deliberada e não mensurada, não sendo possível deter seu veículo com segurança, ao inflectir, interceptar e obstruir o sentido de direção do motociclista provocando o impacto da motocicleta contra o meio-fio e o poste de concreto (PC), vitimando fatalmente os dois ocupantes da motocicleta”, diz o laudo.

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