Julián Fuks dosa ficção e realidade em livro sobre ‘fantasmas’ pessoais

Julián Fuks dosa ficção e realidade em livro sobre ‘fantasmas’ pessoais

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‘A resistência’, que aborda a adoção do irmão do autor, ainda não foi lida por seu personagem principal, apesar de ter caído na graça do público e conquistado prêmios

Dois dias depois de ganhar o Prêmio Literário José Saramago 2017 por sua obra “A resistência” (Companhia das Letras), o escritor brasileiro Julián Fuks, de 35 anos, falou para um público de cerca de 30 pessoas na livraria Santiago, durante o Festival Internacional de Literatura de Óbidos (Folio), em Portugal, na tarde dessa sexta-feira (27). Da decisão de abordar os seus “fantasmas” pessoais -com um toque de ficção-, às consequências da exposição, que vão muito além da conquista de prêmios.

“A resistência”, que também recebeu o Prêmio Jabuti em 2016, conta a história de uma família latino-americana exilada no Brasil durante a ditadura argentina, nos anos 1970. Trata-se de um livro de ficção e, ao mesmo tempo, autobiográfico.

Enquanto apresentava a sua obra, o autor lembrou o que costumava escrever nas dedicatórias dos seus primeiros livros: “Aqui eu estou explorando fantasmas alheios antes de tomar coragem de explorar os meus próprios”. Em “A resistência” essa coragem floresceu.

A família de Fuks tinha um tabu: as origens do irmão mais velho, adotado no período do regime militar argentino, quando centenas de mulheres grávidas foram mantidas em cativeiros, tiveram os seus bebês sequestrados e foram assassinadas.

Falar abertamente da questão da adoção era contrariar o que a gente [a família de Fuks] tinha feito, por um equívoco, durante décadas. Deixar que aquilo se tornasse um tabu na minha família, nos deixar silenciar com essa questão e nos perder diante disso tudo. A decisão de falar abertamente sobre isso foi para contrariar o silêncio, que era em alguma medida confortável e em alguma medida covarde.”

Fuks conta que quando começou a escrever o livro estava muito comprometido com a verdade dos fatos, o que pode ter causado algum incômodo nos pais, que o perguntaram: “Por que te interessa fazer esse tipo de narrativa tão conectada com o real?”. “Eu tinha um compromisso com aquilo que eu não sabia como explicar”, revelou o autor.

Contudo, este compromisso foi se modificando no decorrer da narrativa. “Num dado momento da escrita, eu via que aquilo promoveu certos deslocamentos. A ficção poderia alterar algumas circunstâncias e dar mais contundência a certas visões, a certas proposições. E os meus pais, que tinham estranhado tanto compromisso com o real, questionaram: ‘Por que você alterou isso? Aqui não foi assim…’”, disse, arrancando risos da plateia.

Segundo o brasileiro, o livro tem trazido uma dimensão muito positiva para a família, apesar do irmão mais velho e personagem principal ainda não ter lido.

O meu irmão, que até agora não teve coragem de ler o livro propriamente, fica muito feliz com cada uma das coisas que acontecem. Ele estava no Brasil vibrando com a história do Prêmio Saramago, contando pros amigos, se aproximando, divulgando etc… Ele tem uma relação muito positiva com o livro sem ter lido o livro. Ele encara muito positivamente ter sido exposto. A exposição não é necessariamente um problema na vida de uma família. Ela pode se aproximar de uma solução, por assim dizer.”

O jovem escritor termina o encontro afirmando que tem consciência sobre a cobrança em relação às suas próximas produções após o sucesso de “A resistência”, mas acredita que “essas coisas estão no campo do incontrolável”.

Eu não tenho nenhuma influência sobre a repercussão dos livros em si. O compromisso que eu tenho comigo é de escrever bons livros. Eu quero escrever um próximo livro que seja tão bom quanto este, que seja melhor do que esse.”

Sobre o autor

Filho de argentinos exilados no Brasil, Julián Fuks nasceu em São Paulo, em 1981. Com apenas 35 anos, o brasileiro é autor de quatro livros: “Fragmentos de Alberto, Ulisses, Carolina e eu”, pelo qual ganhou o Prêmio Nascente, em 2003; “Histórias de Literatura e Cegueira”, 2007; e “Procura do Romance”, de 2011, ambos finalistas dos prêmios Jabuti e Portugal Telecom; e “A resistência”, que antes de ganhar o Prêmio Saramago, já tinha conquistado o Prêmio Jabuti de melhor livro de ficção do ano, além do segundo lugar do Prêmio Oceanos.

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